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"Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm." (1 Coríntios 10:23a)

transeuntes.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Mais um proletário.

Como havia dito algumas postagens anteriores trabalho com 40 adolescentes diariamente e hoje um deles faltou. Motivo: entrevista de emprego. Tudo bem não lhe deixarei com falta - afinal entrevista de trabalho é um motivo nobre.
No período da tarde ele veio me falar feliz da vida que arrumou um emprego de Ajudante Geral numa firma. Eu lhe disse parabéns mas no fundo queria lhe dizer o inverso, fiquei com vontade de dizer "Bem vindo ao mundo dos mal pagos, ao mundo da exploração do trabalho, ao mundo do capitalismo desemfreado e esmagador" mas não disse e continuei com aquele sorriso amarelo na cara e segurando seu contrato trabalhista.
Um salário mínimo ganhará para fazer tudo que ninguém quer fazer, o trabalho pesado e sujo. Tudo bem pelo menos terá seu 'dinheirinho' possivelmente sua mãe lhe disse isso. Pelo menos adquirirá experiência, um tio pode ter lhe dito. Esse está se encaminhando pelo menos não vai vender droga nem roubar, a vizinha diz. Mas no final das contas o que ele terá é muito menos do que deveria de fato ter. Onde ficarão os sonhos? Pelo menos ele vai trabalhar. É tudo que temos por enquanto. Numa sociedade desigual o "pelo menos" é tudo que temos.
Um rapazinho de 18 anos, incontestavelmente herdeiro de uma genética nordestina, pigmentado e com traços físicos, portanto, também com descendência negra (mas ele se auto-denomina 'pardo'), sem terminar o Ensino Médio porque foi expulso pela 4ª vez de uma das escolas que passou (é mais fácil jogar fora ao tratar), órfão de pai (morto por tiros), morador de Núcleo Habitacional (vulgo: Favela) na cidade de Diadema e notoriamente carente (emocionalmente falando), tanto que para se defender chama a atenção para si próprio fazendo gracinhas e comentários nada cabíveis para o momento o tempo inteiro (ele tem características de liderança, vejo nele um grande potencial, logicamente se for-lhe dado respaldo).
O que mais poderíamos esperar da exclusão e da estratificação social? Será que de fato ele subiu um degrau na mobilidade social? Ou será ainda que ele vai sentir na pele e no curso de sua própria vida, os efeitos das mesmas desvantagens e discriminações que estiveram sujeitos seus pais (?) participando dessa forma da 'teoria das desvantagens cumulativas' se considerarmos que a origem social é em grande grau entendida como a situação da família em que se nasce e influenciada pela raça da pessoa.

11 comentários:

Elson disse...

Se tá escrevendo pra cakaralho ne menina (You tube - Busque onde vc guarda o seu racismo)
http://www.youtube.com/watch?v=ojg07xOt8CY

Anônimo disse...

Puta que pariu viu Camila!Hoje isso veio a tona...fui "visitar" a Fundação Casa (vulgo FEBEM), e me senti muito mal vendo aqueles meninos...o pior de tudo é que o camarada que paga uma merda de salario para um jovem desse acha que ta fazendo um bem.Bem só se for para o proprio giro capital dele!
Rui

guilherme disse...

texto provocativo,ácido.como de ser.

Élida disse...

Hoje estamos vivendo uma situação mais caótica. Embora muitas pessoas não tenham consciência da funcionalidade do sistema capitalista... Aderiram de tal forma o sistema e suas opressões que é pra qualquer pessoa minimamente sensível (humano de fato) ficar mal ao observar e vivenciar a situação atual da humanidade. Precisamos abrir mão de algumas coisas, pararmos de reproduzir a opressão e continuar lutando!
Beijos Preta!

Aflore... disse...

A realidade foi claramente exposta através do texto. Foda o texto.

Raquel Quintino disse...

Camila, vc me provoca, sempre me deixa alerta no sentido de me questionar se estou sendo coerente, se estou investindo minha energia no que realmente é importante.
Eu respeito muito você como profissional, pq o seu trabalho está comprometido com a vida, com o desenvolvimento das pessoas e para vê-las de cabeça erguida.
Estou adorando o diáio pq assim posso acompanhar essa trajetória, que como sabes me tiraram a chance de conviver mais um pouquinho no dia-adia contigo.
Mas isso não quebrará nossos laços.
Você escreve muito bem, parabéns.

Camilla para os menos íntimos... disse...

A título de informação:
ele saiu do projeto porque não dá para conciliar o trampo e as horas extras, me disse que está muito cansado e que o trampo é pesado mas que logo comprará sua moto para trabalhar de motoboy entregando pizza.

Sem mais.

Thais disse...

Imagino o quanto deve ser doloroso estar diante dessa situação, saber tudo o que está acontecendo e não conseguir fazer tudo que se quer para ajudar. Nessa luta diária, mais um dia de impotência, mais um dia de frustração. Dilema de deixar que ele pense que está conquistando um espaço, conseguindo "oportunidades" ou de fazer ele entender o beco sem saída, de uma vida repleta de exploração e desilusão, despertando assim nesse menino, a realidade de uma vida, de um sonho tão medíocre.

Danilo disse...

Bem, é pesado!Mas é verdadeiro!Tenho pensado muito nisso, Camilla. Acho que temos que reunir um grupo para discutir de fato o que queremos fazer de consistente na vida destes adolescentes. Acho pertinente todo o texto e acredito que tais reflexões devam permear a cabeça de muitos que militam na aréa da infância e juventude no Brasil. Parabéns, acho que vc deveria divulgar como vou fazer este texto!

William Orozimbo disse...

Sente o drama...
O futuro é hoje nova forma de pensar
arsenal levantado revolucionar...
livros livros são as armas aqui
o terrorista na missão homem bomba o fim...
"Reflita essa idéia"

Camilla para os menos íntimos... disse...

não tem nada s ver com o post ou pode até sei lá mas arrepiou quando eu li...

"Propõe-se a todo jovem comunista ser essencialmente humano. Ser tão humano que se acerque ao melhor do humano. Purificar o melhor do homem por meio do trabalho, do estudo, do exercício contínuo da solidariedade com o povo e com todos os povos do mundo.
Desenvolver ao máximo a sensibilidade até sentir-se angustiado quando se assassina uma pessoa em qualquer lugar do mundo e para sentir-se entusiasmado, quando em algum lugar do mundo, se alça uma nova bandeira de liberdade".

[Che Guevara]